O Fim das Cotas Raciais em Santa Catarina

Uma análise brutal de incentivos, assimetrias e realidade cognitiva

A recente decisão de Santa Catarina de extinguir as cotas raciais, mantendo apenas as cotas sociais (renda) e para pessoas com deficiência, tocou em um dos nervos mais expostos da sociedade brasileira: a ideia de meritocracia.

A tese do governo é sedutora em sua simplicidade:

“A pobreza é o único fator universal de exclusão. Resolva a renda, e você resolve a desigualdade.”

Mas sistemas complexos não aceitam explicações simples.

Para avaliar essa decisão, é preciso ignorar slogans políticos e analisar a mecânica real do aprendizado, do ambiente e das desigualdades. Isso exige ir além da cor da pele — e entrar na neurociência, na sociologia, na economia comportamental e na lógica dos algoritmos.

O que segue é uma autópsia da decisão.


1) A camada digital: a ilusão da democratização do conhecimento

O argumento mais comum contra as cotas hoje é:

“O conhecimento está disponível para todos. Basta acessar Google, YouTube ou ChatGPT.”

Isso é uma meia-verdade perigosa.

O acesso pode ser universal, mas a capacidade de alavancar esse acesso é profundamente desigual.

O abismo de alavancagem

O jovem do apartamento

  • Usa a internet como ferramenta estratégica, não apenas como entretenimento.
  • Utiliza IA como tutor personalizado.
  • Participa de fóruns técnicos (GitHub, Stack Overflow, cursos pagos).
  • Aprende o “conhecimento tácito” — aquilo que não está nos livros.

O jovem da periferia

  • Acessa a internet via dados móveis limitados.
  • Vive sob a lógica do zero-rating (redes sociais liberadas, resto restrito).
  • Não consegue baixar cursos pesados ou assistir aulas longas.
  • É empurrado para consumo passivo de conteúdo.

A bolha algorítmica

Algoritmos não são neutros.

  • Para o jovem da elite, o YouTube recomenda ciência, tecnologia, debates.
  • Para o jovem periférico, recomenda entretenimento, viralização e música.

Tradução brutal:
A mesma tecnologia que emancipa um, aliena o outro.

A cota social corrige o resultado final (a vaga), mas não corrige o déficit acumulado de capital cultural digital antes da prova.


2) O ambiente como “droga” cognitiva

O debate ignora um fator decisivo: o ambiente físico molda o desempenho intelectual.

Cenário A — O quarto silencioso (classe média)

  • Temperatura controlada → menos gasto energético do cérebro.
  • Silêncio → estado de fluxo (deep work).
  • Sono regular e alimentação equilibrada.
  • Baixo nível de estresse.

Resultado:
1 hora de estudo aqui pode equivaler a 3 ou 4 horas em condições adversas.


Cenário B — A periferia (caos cotidiano)

  • Ruído constante e estresse crônico.
  • Medo difuso de violência.
  • Multitarefa forçada (cuidar de familiares, resolver problemas domésticos).
  • Calor excessivo e falta de infraestrutura.

Do ponto de vista neurobiológico:

  • Cortisol elevado prejudica memória e raciocínio.
  • O cérebro entra em modo de sobrevivência.
  • O desempenho cognitivo cai.

Conclusão brutal:
Comparar notas desses dois estudantes não é medir inteligência.
É medir resistência ao caos.


3) As variáveis invisíveis que a cota social não captura

Mesmo que a renda fosse igual, outras desigualdades permanecem.

a) Escassez mental

A preocupação constante com dinheiro reduz o QI funcional.
Pesquisas indicam quedas equivalentes a até 13 pontos.

b) Vocabulário herdado

Crianças de famílias escolarizadas ouvem milhões de palavras a mais na infância.
O vestibular testa esse vocabulário — não apenas inteligência.

c) Estética da competência

Existe um viés inconsciente sobre quem “parece” inteligente.

Um branco pobre tende a enfrentar menos atrito simbólico do que um negro pobre, mesmo em ambientes semelhantes.

A cota racial tentava compensar essa camada adicional de desigualdade.


4) O veredicto: a decisão de Santa Catarina foi correta?

Resposta: não.

A decisão foi tecnicamente incompleta e socialmente arriscada.

Por quê?

1) Falsa equivalência

  • Um negro e um branco com a mesma renda não enfrentam as mesmas barreiras.
  • Remover a cota racial equivale a declarar que o racismo deixou de existir.

2) Perda de precisão

  • O modelo combinado (cota social + racial) é mais preciso.
  • Ele reconhece que pobreza e raça operam juntas, mas não são idênticas.

3) Efeito demográfico

  • Em um estado majoritariamente branco, a cota social tende a beneficiar majoritariamente brancos pobres.
  • O resultado é a manutenção da homogeneidade racial nas universidades.

5) As perguntas erradas e as perguntas certas

Perguntas erradas

  • “É justo tirar a vaga de quem tirou nota maior?”
  • “Cotas raciais não criam racismo?”
  • “Negros ricos não vão se beneficiar?”

Essas perguntas ignoram o sistema que produz as notas.


Perguntas certas

  • O vestibular mede inteligência ou mede acesso a condições ideais de estudo?
  • Quem tem maior potencial real: quem tirou 8,5 em condições perfeitas ou quem tirou 7,0 em condições hostis?
  • Que tipo de elite o Estado quer formar: homogênea ou plural?

A REALIDADE

Santa Catarina tentou simplificar uma equação que não admite simplificação.

A cota social é necessária.
Mas a cota racial era o reconhecimento de uma verdade incômoda:

No Brasil, a desigualdade não é apenas econômica — ela é histórica, simbólica e racial.

Ao eliminar essa dimensão, a política pública escolheu a estética da igualdade em vez da mecânica da equidade.

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